A consulta termina, a conversa não
A pergunta que a pessoa segura o encontro inteiro e só faz com a mão na maçaneta. Desta sobra nasceu esta carta.
Tem uma hora da consulta que aprendi a esperar. A pessoa já está de pé, com a mão na maçaneta, e sai a pergunta que ela segurou o encontro inteiro, dita baixo, como quem pede licença. Às vezes é sobre o remédio, às vezes é sobre a escola, e muitas vezes é sobre o cansaço de quem cuida. Não existe agenda que caiba tudo isso. Desta sobra nasceu esta carta.
Escrevo daqui, do consultório
Sou médico de família e comunidade, formado em 2017, e desde a graduação dedico minha formação e minha prática à saúde mental. Fiz graduação em Medicina e mestrado em Psicologia na Universidade Federal de Uberlândia, residência em Medicina de Família e Comunidade na Fundação Pio XII e fui pesquisador visitante do Yale Program for Recovery and Community Health. Atendo famílias atípicas, pessoas que convivem com o transtorno mental grave, cuidadores e mães, presencialmente em Uberlândia e por videoconferência. Nada do que você vai ler aqui vem de fora dessa experiência.
As cartas chegam nas quintas, uma sim e outra não
Cada texto parte de uma cena real de consultório, com os detalhes trocados para proteger quem a viveu, atravessa o que a boa pesquisa já sabe sobre aquele assunto e termina em algo pequeno e possível de fazer nesta semana. Escrevo sobre saúde mental, neurodivergência e a vida em família, sem jargão e sem promessa de cura. Também não vai ter lista de dez passos, porque nenhuma família cabe numa lista.
Isto aqui não substitui uma consulta
Este é um espaço informativo. Não faço diagnóstico por e-mail, não ajusto medicação à distância e não atendo urgências por aqui.
Se houver risco imediato, ligue 192, que é o SAMU. Se a dor for emocional e estiver apertando agora, ligue 188, do Centro de Valorização da Vida, que atende de graça, a qualquer hora, todos os dias.
Escolhi a palavra fio porque é o que sobra quando a consulta acaba
Um fio é fino, cabe na mão de uma pessoa só e, ainda assim, é com ele que se costura o tecido de uma família ao longo do tempo. Aprendi, no consultório e fora dele, que ninguém adoece sozinho e que ninguém se recupera sozinho, e o que sustenta as pessoas nesse meio do caminho é um vínculo que não se rompeu.
A assinatura é gratuita e o link para sair fica no fim de cada carta, a um clique. Que bom ter você aqui. Até a primeira.
Marcelo