Escrevi seis textos antes de perceber que havia um fio entre eles

Carta 1 — se você pudesse pedir uma coisa, sem precisar justificar, o que pediria?

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Escrevi seis textos antes de perceber que havia um fio entre eles

Numa destas noites, revendo um texto antes de publicar, dei com uma frase que eu tinha escrito sem prestar muita atenção nela. Falava de uma família que acompanho há anos, do sono de uma criança pequena, da ansiedade do pai no auge do trabalho e, mais tarde, da memória do avô, e dizia que havia um fio ligando tudo aquilo. A frase ficou comigo.

Voltei aos outros textos que publiquei desde junho e o tal fio estava em todos, sem que eu tivesse combinado isso comigo mesmo. Esta carta nasceu daí, e é também de onde veio o nome dela.

Escolhi a quinta-feira de propósito

Escolhi porque é o dia em que a semana já cansou e ainda não acabou, e me pareceu uma hora decente para alguém sentar cinco minutos. Vou chegar assim, uma quinta sim e outra não.

O que vem aqui não é o resumo do que já está no site. É a conversa que a gente teria se sobrasse tempo na consulta, aquela parte que fica de fora quando o relógio aperta, com a ciência contada por dentro e sem a cerimônia dos artigos. Escrevo para quem cuida de alguém e vai empurrando a própria consulta para o mês que vem.

Se um dia esta carta chegar e você não tiver cabeça para ela, fecha. Ela fica aqui esperando.

Quando as pessoas finalmente pedem, elas pedem coisa pequena

Ando pensando numa coisa. Se você pudesse escrever uma carta pedindo, sem precisar justificar o pedido nem parecer forte na frente de ninguém, o que você pediria?

Pelo que escuto no consultório, ninguém pede cura. As pessoas pedem coisas menores e bem mais difíceis de conseguir. Pedem para dormir uma noite inteira sem acordar às três da manhã com a lista do dia seguinte já pronta na cabeça. Pedem para parar de brigar sempre pelo mesmo assunto. Pedem para ter vontade de alguma coisa de novo, sem ter que fingir animação no meio da semana.

Os seis textos que publiquei desde junho saíram todos de um pedido desses.

O de junho veio de uma senhora que estava exausta de recontar a mesma história inteira para um médico diferente a cada vez, e o que ela queria era ser conhecida, e não atendida. Escrevi então sobre a família inteira como unidade de cuidado, porque o diagnóstico mora num corpo, o tratamento acontece dentro de uma casa, e um vínculo que dura anos deixa de ser cenário e passa a ser instrumento de trabalho.

Duas semanas depois veio o pedido mais dividido que existe, o de uma mãe que queria um nome para o que o filho sentia e, ao mesmo tempo, tinha medo do que aquele nome faria com ele na escola. Daí saiu o texto sobre TDAH sem rótulo. Entre o alívio de nomear e o risco de nomear cedo demais existe um caminho, e ele se chama tempo de avaliação.

Julho trouxe três. O primeiro nasceu de um pedido que demora anos para ser dito em voz alta, o de voltar a ter planos. A pessoa já estava estável, os sintomas controlados, e ainda assim a vida tinha parado. Escrevi sobre recovery e sobre por que ter projeto próprio é parte do tratamento, e não um prêmio entregue depois que tudo melhorou.

O segundo veio de uma mãe que marcou a consulta para o filho e, já com a mão na bolsa, disse que amava os filhos e não aguentava mais ser mãe. Depois pediu desculpa, como se cansaço fosse crime. Fui atrás e encontrei Isabelle Roskam e Moïra Mikolajczak, na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, que ouviram centenas de pais exaustos antes de construir o instrumento que hoje mede burnout parental em dezenas de países. Aquilo que ela achou que era defeito de caráter tem nome, tem quatro faces descritas e tem gente estudando há anos.

O terceiro veio de um pai que perguntou, de um jeito meio sem graça, se existia alguma coisa que ele pudesse fazer em casa sem ser terapia nem remédio. A resposta está no texto sobre o que a família faz junto, e ela é bem menos heroica do que ele esperava. É rotina, repetida.

Na sexta passada saiu o sexto, que acabou fechando o desenho sem que eu planejasse. É sobre como os transtornos mudam com a idade e a família muda com eles. Marco Solmi e colegas, na Universidade de Pádua, na Itália, reuniram em 2022 cento e noventa e dois estudos com mais de setecentas mil pessoas e acharam o pico de início de qualquer transtorno mental aos quatorze anos e meio, com 48% dos casos já começados antes dos dezoito. O mesmo diagnóstico não é a mesma coisa aos oito, aos vinte e cinco e aos sessenta, e a casa em volta também muda de forma a cada vez.

Se você juntar os seis pedidos, eles dizem a mesma coisa. Ninguém está pedindo uma vida extraordinária. As pessoas estão pedindo uma vida mais leve, e que dure.

A rotina pesa mais do que o gesto grande

Se você for guardar uma coisa só desta carta, guarde esta. Escolha uma refeição por semana em que a casa come junto sem telefone na mesa, e segure essa uma. Não é receita nem tratamento, e não resolve nada do que precisa de consulta, mas é o tipo de coisa pequena e repetida que aparece nos estudos sobre convivência familiar, e que se sustenta bem melhor do que o plano ambicioso que a gente inventa num domingo à noite.

O próximo texto é sobre uma briga que talvez você conheça

É sobre conviver com um cônjuge com TDAH sem virar o fiscal da casa. Aparece bastante no consultório e some das conversas de mesa de bar, e se você leu essa frase e pensou em alguém, ele foi escrito pensando em você.

Obrigado por abrir esta primeira. Se ela fizer algum sentido, me responda contando o que trouxe você até aqui, que eu leio.

Um abraço,
Marcelo